Contexto
 
   

SUZANE COIADO - QUALIDADE DE VIDA
A ciência de viver bem
Parte 2

4 - Ande mais a pé.

  Gastar sola de sapato é um dos melhores exercícios que existem, seja para a saúde física, mental, do meio ambiente ou do seu bolso mesmo.

Sim, porque para fazer caminhada você não precisa gastar rios de dinheiro com academias elaboradas, muito menos com personal trainer. Um par de tênis basta. E quando falamos de caminhada, não estamos nos referindo a nada profissional, que exija pista adequada e treinamento. Pode ser no seu bairro, no quarteirão da sua casa, ou até mesmo na escadaria do prédio, na pior das hipóteses.

  Os benefícios físicos vão desde a melhora do sistema imunológico, a perda de peso e a oxigenação do corpo a até mesmo o aumento da nossa inteligência, acredite. Segundo artigo publicado na revista científica americana Trends in Neurosciences ("Tendências em Neurociências"), a caminhada aumenta a resistência cerebral e melhora o desempenho de leitura e aprendizado. E mais: beneficia a plasticidade do cérebro - a capacidade que ele tem de se adaptar a novas situações e realizar funções diferentes. Sem contar o efeito no humor. "Andar diminui o estresse e ajuda muito no combate à depressão", afirma o médico ortopedista Victor Matsudo, consultor da OMS (Organização Mundial da Saúde).

  No corpo, a caminhada ajuda a diminuir a gordura intra-abdominal, aquela que se acumula entre as vísceras. É a famosa barriguinha (...). Ela é considerada a forma mais perigosa de depósito de gordura. Estudos associam diretamente esses tecidos adiposos a vários problemas de saúde - desde ataques cardíacos, problemas coronarianos e hipertensão até a formação de pedras na vesícula biliar.

  Mas ainda está dando preguiça? Bem, não é só da forma física que estamos falando - andar a pé pode ser algo muito mais divertido que fazer uns abdominais e uns supinos na academia, por exemplo. Se você resolver tirar apenas uma hora do seu dia para caminhar no seu bairro, vai perceber uma enorme diferença na sua socialização. "Caminhar permite que você observe muito mais as coisas ao seu redor, aproveite a natureza, reflita sobre a vida, pense em histórias, lembre fatos e acontecimentos, faça cálculos, tenha idéias, faça reflexões", diz Victor. Você vai entrar em lojinhas que nunca percebeu pedir e dar informações, falar com gente desconhecida (nessas, você pode acabar até conhecendo o amor da sua vida). (...).

  Deixar o carro em casa de vez em quando já pode ser um bom começo para começar a se exercitar. O trajeto pode ser pequeno - uma caminhada de sua casa até a padaria ou à banca de revistas -, mas a diferença já aparece. De quebra, você ainda estará contribuindo para a diminuição da poluição, do trânsito, do consumo de combustível, entre outras coisas. Outra boa idéia é evitar o elevador e as escadas rolantes. São atitudes mínimas, mas que vão começar a colocar seu corpo - e, por tabela, a sua mente - para funcionar.

  5 - Tenha (pelo menos) um amigo.

  Todo mundo quer ser feliz, isso é tão verdadeiro quanto óbvio. O psicólogo Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia (EUA), passou anos pesquisando o assunto e concluiu que, para chegar a tal felicidade, precisamos ter amigos. Os amigos, segundo ele, resumem a soma das três coisas que resultam na alegria: prazer, engajamento e significado. Explicando: conversar com um amigo, por exemplo, nos dá prazer. Ao mesmo tempo, nos sentimos engajados, porque doamos muito de nós mesmos a ele. E ainda esse bom bate-papo faz com que nossa vida adquira um significado mesmo que seja momentâneo.

  O cientista social americano Ronald Inglehart analisou diversas pesquisas sobre qualidade de vida e chegou à conclusão que os ingredientes para uma vida feliz incluem relações próximas. "Os homens têm o que os psicólogos apelidaram de uma profunda necessidade de se sentirem incluídos. Os que são apoiados por amizades íntimas se declararam muito felizes", afirma.

  Outro benefício decorrente de ter amigos é manter a saúde em ordem. De acordo com o psicólogo social David Myers, professor da Faculdade Hope, nos EUA, as pessoas que têm amizades próximas ou são ligadas à sua comunidade (seja de colegas de trabalho, de religião ou de organizações por causas comuns) têm menos possibilidade de morrer prematuramente, se comparadas àquelas pessoas que têm poucos laços sociais. E perder esses laços aumenta o risco de ficar doente. "A amizade libera substâncias hormonais no cérebro que favorecem a alegria de viver e o bem-estar", diz Roque Theophilo, presidente da Academia Brasileira de Psicologia.

  Mas será que todo mundo tem amigos? A resposta não é tão óbvia. Uma das queixas mais freqüentes no divã de analistas é a solidão. Gente que não encontra ninguém para dividir com sinceridade suas angústias. Ou que se sente só mesmo quando rodeada de pessoas - aquela impressão de ter mil amigos, mas na realidade não ter nenhum. É a chamada superficialidade das relações, tão discutida nos dias de hoje.

  Segundo o psicanalista Contardo Calligaris, o único jeito de ultrapassar a barreira da solidão é justamente tendo pelo menos um amigo e um amor. Um só de cada, não precisa ser muito. Mas isso dá um trabalhão (...), não pense você que é fácil.
  (...) "Não se consegue uma amizade sem generosidade", afirma o psiquiatra. Para termos pelo menos um amigo, diz ele, precisamos nos livrar daquilo que ele chama de "avareza de si mesmo". Trocando em miúdos: doar-se, estar disponível, saber trocar. E, principalmente, olhar além do próprio umbigo.

  6 - Coma devagar.

  Parece até falatório de mãe, mas os benefícios de diminuir o ritmo das garfadas são incríveis. Para começar, ninguém ganha tempo comendo um sanduíche na frente do computador - o máximo que você ganha são quilos a mais, uma vez que, quanto mais rápido come, mais fome sente. "Existem dois centros que regulam a alimentação no cérebro: o centro da fome e o centro da saciedade", afirma Arthur Kaufman,

coordenador do Prato (Projeto de Atendimento ao Obeso), do Hospital das Clínicas da USP. "O centro da saciedade demora até 20 minutos para mandar uma mensagem ao outro de que você está comendo e está satisfeito. Se você comer muito rápido, vai passar da conta, sentir o estômago estufado antes que seu centro de saciedade tenha tempo de informar seu corpo de que já está bom e você deve parar de comer." É isso que acontece numa churrascaria rodízio com aqueles que comem na mesma velocidade em que os garçons trazem os espetos.

  Isso quer dizer que, se você comer mais devagar, provavelmente vai comer menos sem ter que fazer nenhuma dieta. O que será um ganho (...) à sua saúde. Fora a redução do peso e do risco de doenças aliadas à obesidade, há diversas pesquisas que apontam que devemos diminuir a quantidade de comida se quisermos viver mais. Por exemplo, uma experiência conduzida na Universidade de Wisconsin em Madison, nos EUA, mostrou que a redução do consumo calórico entre 30% e 40% fez aumentar a sobrevida de ratos até os 38 anos - isso corresponderia a aproximadamente 114 anos em humanos.

  Mas e o prazer de comer? Tem razão, é um dos principais prazeres da vida. Mais um motivo para você comer devagar: vai saborear melhor a comida, apreciar o prato e o momento, e, de quebra, não vai ficar empanturrado. "Não há nenhum problema em comer um hambúrguer e uma porção de batatas fritas, desde que você saboreie o sanduíche, sinta o gosto do que está comendo e comer seja sua atividade principal naquele momento", afirma Heloísa Mader, representante do Movimento Slow Food em São Paulo.

  Em oposição à moda do fast food, o slow food prega que incrementar a qualidade da comida e desfrutá-la com calma é uma maneira simples de fazer o nosso cotidiano mais feliz - conceito, aliás, aprovadíssimo pela Associação Dietética Americana. O movimento quer que as pessoas voltem a curtir a refeição, e não comer por compulsão ou como uma forma de compensar a ansiedade. Lembre-se disso quando for buscar um sanduba correndo na padaria para comer entre um trabalho e outro na frente do computador. "Isso é pior ainda. Quando está distraído, você não percebe o sinal do centro de saciedade e passa da conta. E o pior: como não registra a saciedade, dali a 30 minutos vai ter fome de novo", diz Arthur. E já que o convencemos a comer mais devagar, aproveite para compartilhar as refeições com quem mais gosta - isso não inclui o computador nem a televisão, que fique bem claro.

  7 - Desligue a TV.

  Ninguém está dizendo aqui para você nunca mais assistir à televisão. Mas que você poderia diminuir o tempo em frente ao aparelho, isso você poderia. Até porque televisão em excesso não faz bem. Telespectadores inveterados podem ter suas funções cognitivas alteradas, problemas de postura e articulações, além de tornarem-se dependentes da telinha: essa é a conclusão de um amplo estudo realizado em 2003 nos EUA pelos pesquisadores Robert Kubey, diretor do Centro de Estudos de Mídia da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, e Mihaly Csikszentmihalyi, professor de psicologia da Universidade de Claremont, na Califórnia.

  Sim, o hábito de se largar no sofá e assistir a qualquer porcaria que esteja no ar pode deixar as pessoas viciadas no relaxamento que a TV produz. O problema é que essa sensação gostosa vai embora assim que o aparelho é desligado –(...). O estado de passividade e a diminuição no grau de atenção, no entanto, continuam. Quando vista por mais de 20 horas por semana, a televisão pode danificar as funções do lado esquerdo do cérebro, reduzindo o desenvolvimento lógico-verbal.

  Faça uma continha rápida: se você assistir à televisão por cerca de 3 horas por dia, quando chegar aos 75 anos, terá passado nove anos inteiros da sua vida vendo TV. É tempo para chuchu sem exercitar a mente nem o corpo, o que pode acarretar sérios problemas, desde obesidade a até mesmo doenças degenerativas cerebrais, como demência e mal de Alzheimer.

  O cérebro, assim como o corpo, também precisa ser exercitado. Só que ninguém se lembra dele nas academias de ginástica, por exemplo. A diminuição da capacidade mental associada à idade ocorre por causa de alterações nas ligações entre as células cerebrais. Há indícios de que manter o cérebro em atividade ajuda a aumentar as reservas de células e conexões cerebrais. "O que é bom para seu coração é bom para seu cérebro. Tudo aquilo que você fizer para prevenir doenças coronárias também vai ajudar sua cabeça e assim diminuir o risco de desenvolver mal de Alzheimer", indica a Associação Alzheimer, órgão americano de ajuda e informação aos portadores da doença. (...).

Ler, escrever, jogar jogos de tabuleiro, aprender coisas novas, fazer palavras cruzadas, resolver passatempos de lógica: todas essas atividades mantêm seu cérebro ativo e, quem sabe, criam reservas de células e conexões. Estudar sempre algo diferente pode ser um bom jeito de obrigar sua cabeça a pensar mais. Outra idéia que também contribui para romper a inércia cerebral é praticar atividades ao ar livre - no mínimo, elas vão arrancar você do sofá e da frente da televisão.
 
 Não leve nada disso tão a sério.

Se você leu esta reportagem até aqui - e levou tudo o que está escrito em consideração - deve estar cheio de tarefas a cumprir. De fato, são dicas que podem ajudá-lo a melhorar consideravelmente seu dia-a-dia. Mas, sinceramente, não precisa tanta rigidez. Se der para fazer tudo, ótimo. Se não der, tudo bem também. E não precisa levar tão a ferro e fogo as milhares de pesquisas que mandam comer isso e fazer aquilo, caindo em depressão profunda se "fracassar" em um ou dois itens. Afinal, são as escapulidas que tornam a vida da gente divertida - ou você acredita mesmo que todas as nutricionistas esguias e saudáveis só comem refeições balanceadas e todos os médicos fazem ginástica todo santo dia? Essas pessoas também capitulam a preguiça, comem demais (...).

  Radicalismos e rigidez com regras são um perigo. Podem se tornar uma obsessão e isso não é bom - mesmo que seja por uma vida saudável. O melhor mesmo para a saúde é o equilíbrio, a flexibilidade. "Todos os meus pacientes que mudaram o comportamento e se tornaram mais flexíveis tiveram uma melhora no estado de saúde. Pessoas muito rígidas, controladoras e perfeccionistas tendem a ter mais doenças do coração", afirma o cardiologista Alan Rozanski, do Departamento de Medicina da Universidade Colúmbia, Nova York. Os oncologistas também vêm avançando em estudos que comprovam ligação entre esse tipo de comportamento humano e o desenvolvimento de câncer - chama-se "padrão biopsicossocial de risco de câncer". Ele é caracterizado principalmente por pessoas que negam ou suprimem as emoções, são muito racionais e têm um controle muito rígido que as impede de se expressar. Esse perfil diminuiria a competência do sistema imunológico, seja para prevenir o câncer, seja para combatê-lo durante o tratamento, ou para impedir que ele reincida.

  Edward Creagan, médico oncologista da Clínica Mayo, em Rochester, EUA, é um ardoroso defensor da flexibilidade para a manutenção da saúde. Mas como chegar até ela? "Ser resiliente não é seguir os clichês de 'se a vida te deu um limão, faça uma limonada'. Ser resiliente é não ignorar seus sentimentos, suas dores", diz. "É também perceber que nem sempre você tem que ser forte, você pode pedir ajuda. Esses são fatores fundamentais para lidar bem com o estresse e com as situações ruins da vida. Essa capacidade protege você e seus familiares de doenças como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, doenças cardíacas e diabetes".

Está vendo? Até o corpo agradece. E aí? Vai uma picanha no capricho? Com polenta frita?

Extraído e adaptado do:
 texto de  Mariana Sgarioni / Reportagem: Ana Paula Chinelli/ Revista Superinteressante