PALAVRAS AVULSAS - JÚNIA BANDEIRA
Who's there
Nos últimos anos vemos muitas coisas que eram consideradas quase que impossíveis acontecerem, tanto em nosso país como em toda parte do mundo. Esses acontecimentos nos remetem a uma pergunta que alguns estudiosos apontaram como fundamental no livro Hamlet de Shakespeare, onde a questão básica para eles não era a “ser ou não ser, eis a questão”, mas sim a “who’s there” ou quem está aí? (1)
Essa pergunta é muito mais abrangente do que simplesmente tentarmos decifrar “Quem sou eu?” Ela nos leva a uma análise de quem está por trás das máscaras que usamos no nosso dia-a-dia, nos sonhos que temos, nas convicções tão defendidas, no que realmente esperamos para o futuro e no reconhecimento de tudo isso, tarefa um tanto quanto complicada para nós seres humanos que resistimos a toda e qualquer informação exterior quando está não está de acordo com os nossos desejos.
Em 2002 nas eleições presidenciais onde elegemos Luís Inácio Lula da Silva um torneiro mecânico tão discriminado por sua condição social para Presidente da República do Brasil, podemos sentir um pouco daquilo que os americanos vivenciaram recentemente com a vitória de Barack Obama para presidente dos EUA e voltar a pensar nessa pergunta: quem está aí?
Na época da eleição de Lula vi máscaras caindo e vindo a tona sentimos que realmente expressavam a essência (2) de cada pessoa, tanto para coisas boas como para as ruins e um fato que me emocionou bastante foi de uma mulher, não me recordo o seu nome, mas a sua história ficou gravada em minha memória. Paraplégica, sobrevivente da ditadura militar onde passou por várias privações e tortura, a vitória de Lula tinha um gosto especial, era uma nova página da história sendo escrita, nem tudo estava perdido, a chama da esperança estava acessa novamente, o que era quase que impossível havia acontecido. Pode parecer dramático num primeiro momento, mas para cada pessoa determinados fatos são muito fortes e representam à essência da pergunta quem está aí?
Como o exemplo dessa mulher anônima Barack Obama também citou à de uma senhora:
Ann Nixon Cooper de106 anos que nasceu apenas uma geração depois da escravidão, em uma era em que não havia automóveis nas estradas nem aviões nos céus, quando alguém como ela não podia votar por dois motivos - por ser mulher e pela cor de sua pele. Esta noite penso em tudo o que ela viu durante seu século nos EUA - a desolação e a esperança, a luta e o progresso, às vezes em que nos disseram que não podíamos e as pessoas que se esforçaram para continuar em frente com esta crença americana: Podemos.
Em uma época em que as vozes das mulheres foram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela sobreviveu para vê-las serem erguidas, expressarem-se e estenderem a mão para votar. Podemos. Quando havia desespero e uma depressão ao longo do país, ela viu como uma nação conquistou o próprio medo com uma nova proposta, novos empregos e um novo sentido de propósitos comuns. Podemos.
Quando as bombas caíram sobre nosso porto e a tirania ameaçou ao mundo, ela estava ali para testemunhar como uma geração respondeu com grandeza e a democracia foi salva. Podemos. Ela estava lá pelos ônibus de Montgomery, pelas mangueiras de irrigação em Birmingham, por uma ponte em Selma e por um pregador de Atlanta que disse a um povo: "Superaremos". Podemos. O homem chegou à lua, um muro caiu em Berlim e um mundo se interligou através de nossa ciência e imaginação. E este ano, nestas eleições, ela tocou uma tela com o dedo e votou, porque após 106 anos nos EUA, durante os melhores e piores tempos, ela sabe como os EUA podem mudar. (3)
A busca por mudanças está cada vez forte e em meio a um turbilhão de acontecimentos fica essa pergunta para refletirmos: who’s there? Caso não consigamos responder a essa questão com certeza a história dirá para nós os seus reflexos.
Martin Luther King não viu o resultado da sua luta e nem da resposta a sua pergunta, mas hoje vimos o seu sonho sendo realizado.
“Tenho um sonho que meus quatro filhos viverão, um dia, em um país onde não sejam julgados pela cor de sua pele, e sim por seu caráter”.
(1)Tese de Jean Lauand. Jesus Lúdico – Notas sobre a pergunta fundamental de Shakespeare: Who’s there?
(2) Essência no sentido contemporâneo (Heidegger), ou seja, é o homem que produz aquilo que ele é, aquilo que ele é capaz de fazer de si mesmo.
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